sábado, 4 de julho de 2015

OCEANOS NAS BERMUDAS


Hoje 4 de Julho de 1964 houve 2 eventos nas Bermudas, O primeiro de manhã e que foi uma regata à vela em Castle Harbour. As equipas eram constituídas por 5 cadetes e velejaram nos "Sunfish", embarcações de 1 só tripulante e com vela de pendão e retranca, eram quase com uma prancha, mas bons veleiros. Os OCeanos foram os seguintes: Simões Teles, Simões Lopes, Nuno Mergulhão, Calvet Baptista e Serradas Duarte. A nossa prestação foi honrosa pois tivemos um 2º lugar na individual e 4º por equipas.

À tarde houve um "party" ao pôr do sol no Carlton Beach Hotel ( o postal de ontem mostra este hotel). Dançou-se o "Limbo" e outros ritmos mais condizentes com o calor, e quando escureceu acenderam-se archotes. Creio que só havia cadetes de mais outro navio. Havia hamburgers, cachorros e muita coca-cola, bebidas alcoólicas zero. Alguns OCeanos no confronto das danças chegaram a entrar fardados pela água dentro. Houve quem à socapa abandonasse o "party" e fosse para a "boite" do hotel tendo regressado de boleia ao navio. Este hotel mudou de nome uns anos mais tarde, para "Sonesta Beach Hotel" e posteriormente foi deitado abaixo para ser aí construído um "Condo" de luxo.
Com o navio aberto ao público era um sem descanso a guiar as visitas pela Barca. Por vezes aparecia pessoal americano que queria dar uma gorjeta a quem o guiou pelo navio; houve pessoal da guarnição que ainda amealhou alduns dólares.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

OCEANOS NAS BERMUDAS

(O Carlton Beach Hotel, Bermudas, lugar de grande "party" com limbo e tudo)

Entretanto com a Sagres atracada ao cais, torna-se mais fácil a deslocação a terra em licença.
Durante o dia explora-se a cidade, tentam-se contactos com o pessoal de língua inglesa.
À noite tivemos a primeira desforra com os alemães. A "boite" com mais interesse era localizada no hotel Bermudiana. Os cadetes alemães impedidos de entrar, porque estavam em camisa "colonial" a verem-nos entrar fardadinhos de 5-B. Aí eramos quais Neptunos, reis dos mares.
Outros OCeanos visitaram o Clube Lusitano Vasco da Gama e aí jantaram com os nossos patrícios.
De salientar as belíssimas praias com uma areia fina e extremamente branca que mais parecia farinha.
À noite ouviam-se uns sons de grilo nos jardins que constatamos mais tarde que eram uns aparelhos electricos que produziam tais sons.
Esqueci-me de referir que quando ainda estávamos fundeados se dirigiu a nós um iate a motor com duas bonitas raparigas à proa e que foi atracar ao portaló; qual o nosso espanto que sai um padre devidamente vestido e que era nem mais nem menos que o cônsul honorário português nas Bermudas e que trazia o correio para toda a guarnição do navio. E lá se foi o iate com as garotas. O nosso cônsul foi infatigável em ajudar-nos. Na recepção dada na Sagres foi "condecorada" com o típico das Caldas da Rainha, e com diploma em latim, redigido pelo Capelão Melo; até vieram as lágrimas aos olhos do condecorado tal a sua "emoção" ( 3 anos depois quando embarcado passei por Hamilton e o Sr. Padre recordou com alegria a cerimónia).

EFEMÉRIDES NAVAIS


Foi a 3 de Julho de 1419 que João Gonçalves Zarco tomou posse da ilha da Madeira.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

OCEANOS NAS BERMUDAS

(Cadetes OCeanos em 1964, de "dolman")

A Sagres muda na manhã de 2 de julho de 1964 para um fundeadouro mais perto da cidade.
À passagem pelo Hotel Princess, dá-se um facto curioso; o hotel tem hasteadas as bandeiras dos países dos veleiros, à passagem da Sagres saúdam o navio arreando a nossa bandeira e depois içando-a como faziam os navios mercantes.
A seguir ao almoço finalmente as licenças para terra. Primeiro os oficiais, a seguir os sargentos e as praças e em último lugar os cadetes; entretanto passa uma antiga "LDM" com turistas e nós pedimos boleia, couberam todos os OCeanos de uma só vez, e fomos desembarcar numa marina junto ao hotel.
À tarde só com o pessoal de serviço a Sagres foi atracar num cais afastado da cidade.
Uma das primeiras curiosidades foi que os turistas apenas podiam alugar Velosolexes e Mobilettes, pequena motorizadas sem mudanças. A primeira tarde foi para reconhecimento.
O Hotel Princess tinha um salão de chá em que à tarde os "Bifes" vestiam de Smoking com calções pretos e meias altas de seda, muito British. Nós como eramos os únicos com "Dolman" podíamos frequentar o salão, os outro cadetes não entravam!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

OCEANOS NAS BERMUDAS

(Hamilton, Bermuda)

Enfim, a 1 de Julho de 1964, a Sagres fundeia em Five Fathom Hole, ao largo de Hamilton. Não há licenças para terra, ficamos a vê- lá pelos binóculos. Para compensar a água racionada durante a Regata, hoje é dia de água aberta, que maravilha sentir a água a cair dos duches. Ao anoitecer vemos os "nèons" dos anúncios de Hamilton, hoteis, restaurantes e "boites". Vemos o nosso rival Alemão, que em breve os seus cadetes vão sofrer a nossa desforra. Aproximam-se dezenas de embarcações com curiosos a bordo para ver de perto a Sagres. Quando alguma embarcação traz "girls" é um correrio para a borda. Sabemos que amanhã haverá licenças e que iremos atracar. Finalmente os OCeanos poderão "galgar" terra.

EFEMÉRIDES NAVAIS

(Ponta de S. Lourenço, Madeira)

A 1 de Julho de 1419, Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobrem a ilha da Madeira.

terça-feira, 30 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS

( A Sagres chegando a Hamilton, Bermudas, ... numa outra vida)

Para a Sagres terminou a regata. Remata o cronista Cad. Simões Teles, como epílogo da seguinte forma:

"A Regata LISBOA - BERMUDAS na Sagres, apesar de insucesso, não é um facto para esquecer. Ela constituiu uma grande lição e uma experiência extraordinária em especial para nós os 70 cadetes do curso "Oliveira e Carmo" que, durante 24 dias vivemos e nos esforçàmos duramente a bordo da Sagres.
Todos nós nos orgulhamos de ter tomado parte na grande regata.

Soubemos posteriormente que o Gorch Fock passara 1 dia antes de nós pelas Canárias, e que foi o primeiro a chegar às Bermudas. O "20" tinha razão ...
Todos esperamos um dia poder tirar a desforra"

Agradeço ao OCeano Simões Teles ter autorizado a publicação do seu relato editado em Março de 1965 na revista Tridente, e ao OCeano Silva Nunes pela colaboração colocando as imagens apropriadas ao escrito.
O veleiro alemão era uma cópia da Sagres 20 anos mais novo, revisto e melhorado. O velame era feito em fibra sintética o que o tornava mais leve, não encharcava nem deformava, permitindo um maior rendimento quando navegando à vela. Apesar de chegar em 1º lugar, com as regras de abono foi o Christian Radich que venceu. Também foi a 1ª vez que a regata passou a ter a designação oficial de "Tall Ships Race".

EFEMÉRIDES NAVAIS


Foi a 30 de Junho de 1796, que foi criada a Sociedade Real Marítima e Geográfica para a realização das cartas hidrográficas e militares.

OCEANOS


Foi a 30 de Junho de 1942 que nasceu aquele que viria a ser o OCeano Moura O' Neill.
Um abraço de parabéns ao Camarada.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS


Aproxima-se o final da crónica do então Cad. Simões Teles. Escreveu assim relativamente ao dia 29 de junho de 1964:

"Estamos pràticamente parados. O mar é um espelho e no Diário Náutico regista-se "estanhado". Há quem pesque. Vão dois cadetes para o tope do mastro grande com uma filaça, tentar determinar a direcção do vento. Paira algo de estranho a bordo. Fala-se em desistir e meter máquina. Estamos a 480 milhas das Bermudas e sabemos de 2 veleiros a cerca de 50 milhas.
 Discute-se.
E, às 13,00, no meio do silêncio geral, tendo por cenário as velas das Cruzes vermelhas pendentes das vergas, quietas e melancólicas sem vento que lhes dê vida, o Comandante Horta fala à guarnição. Nesse momento abandonávamos a Regata.
Fizemos tudo o que nos foi humanamente possível. A pouca sorte perseguiu-nos. Em vela é mesmo assim. Desistimos da regata com a cabeça erguida e que ninguém se inferiorize pelo sucedido.
"A perseverança quando levada ao exagero é teimosia" terminou o Comandante Horta."

A seguir às palavras do Comandante houve ordem para arriar, carregar e ferrar a preceito o pano. Era ver o "Papagaio" a soluçar, o "20" mudo e triste por ter tido razão, o "69" não dizia uma palavra. Todos na faina calados. Concretamente o Contra-Mestre do Traquete Sargento Alexandre, mastro a que eu pertencia, avisou o seu pessoal que não conseguia apitar para coordenar a faina.
Os dois veleiros mais próximos das Bermudas e à vista um do outro eram o Gorgh Fock (à frente) e o Christian Radich. O comandante alemão chegou a fazer uma faina de passar as amarras dos ferros para ré alterando o caimento para navegar mais depressa. Também deitou fora quase toda a aguada, para ficar mais leve.

OCEANOS


Foi a 29 de Junho de 1945 que nasceu o futuro OCeano Pedro Bastos Moreira.
Um grande abraço de parabéns.

domingo, 28 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS

( O lugre ARGUS, irmão mais novo do Creoula. Em 1950 embarcou Villiers na faina do bacalhau)

O cronista Cad. Simões Teles relata assim o dia 28 de junho de 1964:

"Domingo. Novamente o navio anda menos do que em qualquer outro dia da semana precedente. O céu está limpo e faz muito calor. Na nossa coberta é quase impossível estar. A "praia" do castelo é pequena para a concorrência.
Das 06,30 às 09,00 houve lavagem de roupa. Navegamos em regime de água fechada. Hoje todos têm direito a mais dois baldes de água, para desencardirem pouco as suas fraldas. Vê-se, com grande espanto, esfregarem-se pijamas, camisas e calças brancas com escovas de lavar o convés!!! O Cabo Cerqueira controla o enchimento dos baldes, mas não pode impedir que alguns aproveitem a facilidade para um banho um pouco melhor. O navio respira a limpeza esta manhã.
Connosco viaja um Australiano, marinheiro dos sete costados. Trata-se de Alan Villiers, actualmente repórter do National Geografic. É alto e forte e, se olharmos ao seu passado ficamos a saber que 23 dias de mar, para ele é uma brincadeira. Muito culto, muito viajado é um inglês simpático. Comandou já vários veleiros e fez uma reportagem a bordo dum lugre-bacalhoeiro da nossa frota. Levanta-se à alvorada, com seu uniforme caqui, binóculos ao pescoço, passa o dia inteiro no tombadilho, ou passeia pelo navio tirando fotografias. Tem um grande apreço pelos marinheiros portuguêses e isso torna-o bem-vindo a bordo."

O Cabo Cerqueira era o "Cabo da aguada". Estava limitado fisicamente, devido aos ferimentos sofridos quando do desastre do avião do "vôo da amizade" que levava parte da guarnição da então futura Sagres, e que se despenhou ao aproximar-se do aeroporto do Recife. O Comandante Horta também ia, tendo ficado ileso, e foi ele que "comandou" os socorros aos passageiros. Viam-se cicatrizes nas pernas do Cabo Cerqueira resultantes das queimaduras que sofreu.
O Capt. Alan Villiers, capitão da marinha mercante inglesa era um "Cap Hornier"; tinha dobrado o Cabo Horn várias vezes, era portanto o único a bordo que podia "cuspir para barlavento" segundo a tradição naval. A reportagem sobre o bacalhau foi feita a bordo do bacalhoeiro Argus e deu origem ao famoso livro "A campanha do Argus". Um dos motivos de apreço pelos portuguêses era que estes embarcavam sozinhos no dori. Só quando levavam um pescador "verde" é que este embarcava com outro pescador mais experiente. Os pescadores dos outros países embarcavam aos pares. O capitão do Argus (Cap. Paião) era um oficial que gostava de navegar à vela com o máximo pano possível; era muito admirado pelo Capt. Villiers.