sábado, 13 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS


Sábado 13 de junho de 1964, dia de Santo António.
Hoje houve sardinhas (congeladas) assadas. Creio que durante toda a viagem foi o único mimo.
Por questões de logística o rancho era "único", igual para todos, tendo os cadetes o privilégio de serem os últimos a serem servidos. No mar a nossa companhia eram os golfinhos que ao som dos assobios da guarnição se aproximavam da Barca e nadavam paralelos ao nosso rumo, depois seguiam para a sua vida.

Escreve o Cadete Simões Teles:
"Navegamos há dois dias com vento de NE. O odómetro oscila entre os 9 e os 11 nós. Reina a satisfação a bordo. Não voltamos a avistar qualquer outro veleiro e isso dá-nos paradoxalmente uma sensação de confiança. Sabemos que com vento forte a Sagres anda mais que qualquer outro. As conversas, porém, buscam já outros temas. O "20" continua a apostar em como o Gorch Fock vai à frente. Creio que em jogo já estão duas grades de cerveja.
Não temos informação de qualquer espécie. Porém a bordo do Elcano, viaja um repórter da Rádio Nacional de Espanha. À tarde, ouvido à escuta, junto à telefonia. As reportagens vão-nos elucidando um pouco sobre a regata. O homem é falador. Anda constantemente na nossa boca uma das frases das primeiras  reportagens. "Com uma manobra mui hábil de nuestro comandante, el bergantim goleta, Juan Sebastian d Elcano hay contornado la isla de Hierro". Com certeza diz coisas que não sabe. Nós inventamos as restantes.
Julgamos o veleiro espanhol e o Libertad, argentino, a navegarem juntos, bastante para trás de nós. Do alemão nada se sabe".

Viemos a saber que mal o vento refrescava, o alemão carregava imediatamente os sobres e entremastos altos, por precaução. Esta precaução seria devido ao trauma de o veleiro "Pamir" navio escola da marinha mercante alemão ter naufragado debaixo de um temporal, nos anos 50,  em que não chegou a carregar pano, tendo morrido quase toda a guarnição e os cadetes.

OCEANOS


Foi a 13 de Junho de 1942 que nasceu aquele que viria a ser o OCeano Alfredo Andresen Guimarães.
Um grande Abraço de parabéns e que se repitam por muitos anos.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O capitão instrutor

Até, pelo menos, 1966 não havia espingardas G-3 na Escola Naval, nem se ensinava o respectivo manejo de arma; o mesmo sucedia nas outras escolas da Armada, com excepção dos Fuzileiros, já praticantes desta matéria. Quando parti para comissão em Moçambique na "Vasco da Gama", o navio estava equipado com espingardas G-3 para uso da Força de Desembarque, que as utilizava amiúde, mas nada de ordem unida ou manejo de arma. Certo dia na cidade da Beira o navio teve que dar um pelotão para uma cerimónia militar, talvez por ocasião do 10 de Junho, sendo eu nomeado para comandar a força. Aqui levantou-se um problema, porque todos os oficiais, sargentos e praças sabiam somente manejar a Mauser. Todos? Não. Descobrimos que o capitão do navio, o único grumete barra 66 a bordo, já tinha recebido instrução de G-3. E foi assim que sob a superior orientação do grumete mais marreta se treinou o pelotão, que se apresenta na fotografia e não fez má figura.

REGATA LISBOA - BERMUDAS


O nosso cronista OCeano Simões Teles no seu relato não especifica o dia de hoje.
Vou lembrar a forma do detalhe de mastros na viagem. Os "Permanenentes"  de cada verga eram  praças experientes e que ocupavam o lais da verga.
O pessoal detalhado para "Sobre e Joanete" era constituído pelo permanente, a seguir um cadete a um bordo, no outro bordo no lais era o outro permanente e dentro era um grumete. 4 homens constituíam esta equipa.
Para "Velachos"e também para as "Gáveas" o detalhe tinha  8 homens; o permanente num lais, a seguir um cadete, depois um marinheiro e dentro um grumete, do outro bordo o permanente, cadete, grumete e marinheiro.
Quer para o "Traquete" quer para o "Grande" o detalhe previa 10 homens, havendo mais im marinheiro que ocupava a posição junto ao mastro.
Depois havia o pessoal no convés encarregue das "ostagas", "adriças", "carregadeiras" e "escotas".
No mastro da "mezena" o pessoal trabalhava todo ele no convés.
Também quanto ao "Gurupés "  o pessoal trabalhava no convés ao içar as velas e ao arrear algum dele ia para o mastro.
O responsável por cada mastro era um Sargento Manobra, o Contra-Mestre.
Outro pormenor curioso é o de a escada de BB do convés para o tombadilho ser reservada ao Comandante da barca; só o Mestre é que podia utilizá-la. O comandante quando estava no tombadilho ao ocupar um bordo, levava a que o pessoal de quarto se mudasse para o outro bordo, tradição do antigamente que permitia visibilidade por parte da guarnição em relação ao seu comandante.

EFEMÉRIDES NAVAIS

(Corv. B. Dias, 1º navio da AP a usar  propulsão a vapor)

A 12 de Junho de 1858, o Infante D. Luís, mais tarde rei, foi nomeado comandante da corveta "Bartolomeu Dias". Foi o único membro da casa real portuguêsa que fez carreira na Marinha Portuguêsa.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS

( O Danmark)

Seguindo o relato do OCeano Simões Teles. Estamos a 11 de junho de 1964.

Ainda com a ilha de Palma à vista; "Pela popa surgiu uma vela, depois outra, do mesmo mastro, e desapareceram no horizonte uma hora depois. Nos topes do "Grande" e do "Traquete" quase todos nós fazíamos conjecturas. A Sagres singrava a 5 nós. À tarde, por volta das 16,00 alterou-se francamente o rumo e, com o Sol na proa encetamos a 2ª parte da REGATA.
À nossa frente o Atlântico imenso e, lá longe, a 2 000 milhas, as ilhas Bermudas, a nossa meta. Iamos entrar na fase mais importante e mais difícil.
A vida a bordo continuo. Vida dura a de marujo".

A partir de agora só teremos terra à vista quando chegarmos ao nosso destino. Soube-se mais tarde que o veleiro avistado era o "Denmark", fragata ligeira e que se movimentava bem com ventos fracos.
Agora alguns OCeanos já empunhavam o seu cachimbo quais lobos do mar. E o "20" sempre convicto que o alemão já nos dera um bigode. Como o Alan Villiers era amigo de um tio meu (cap. no bacalhau) tentei obter alguma informação que o Comandante tivesse acerca da posição dos outros veleiros, mas ele com o seu sorriso bonacheirão baldou-se sempre.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Enfermeiras Paraquedistas - Homenagem


Hoje, no XXII Encontro Nacional de Homenagem aos Combatentes, junto à Torre de Belém, foram homenageadas as primeiras mulheres portuguesas militares, as Enfermeiras Paraquedistas, que prestaram serviço na FA de 1961 a 1974.
Actuantes com entusiasmo, coragem e abnegação nos vários teatros de operações na guerra de África, viram final e publicamente reconhecida com inteira justiça a sua acção meritória, quer profissional quer moralmente junto daqueles que inúmeras vezes necessitaram do seu apoio e conforto, fosse na assistência in loco fosse nas evacuações para os hospitais territoriais ou para Lisboa.
O blogue “Água aberta... no OCeano” aqui lhes presta também a sua homenagem.

Nota: Foi publicado há não muito tempo um livro, com depoimentos seus do que foi a sua vida militar, intitulado “Nós, Enfermeiras Paraquedistas”, que vale bem a pena ser lido (passe a publicidade), principalmente por aqueles militares que serviram naquelas paragens.

REGATA LISBOA - BERMUDAS

(Mar calmo)

Continuando com o relato do OCeano Simões Teles:

Dia 10 de Junho de 1964, feriado nacional
"Estivemos um dia à vista da ilha de Palma"
Nesta altura a calmaria era total. Os quartos aos mastros passavam-se sem qualquer actividade. Para quebrar a monotonia ouvíamos as discussões do "20" com o pessoal, a algaraviada do "Papagaio" e ao fim da tarde eram os diálogos entre o Penicheiro Raúl Leitão e o Lourinhense Director de Instrução Com. Sousa Machado que nos proporcionavam alguns momentos de gozo.

EFEMÉRIDES NAVAIS

(Gonçalo Coelho)

A 10 de junho de 1503 parte para a América do Sul em busca de uma ligação Atlântico - Pacífico, uma armada de 6 caravelas sob o comando de Gonçalo Coelho.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Almoço OCeânico (09Jun15)

Hoje tivemos o nosso 6º encontro gastronómico de 2015 que, como sempre, foi animado. Porém, a participação limitou-se a uma escassa dúzia de OCeanos. Houve muitos faltosos: uns porque andam adoentados ou porque estão ocupados nas suas tarefas familiares e, outros, porque estão ausentes da capital a cuidar das suas quintas ou simplesmente porque estava muito calor. Numa mesa, alguns dos 12 OCeanos presentes lembraram o episódio dos 12 valentões lusitanos conhecidos pelos “12 de Inglaterra”:

       Recolhe o Duque os doze vencedores
       Nos seus paços, com festas e alegria;
       Cozinheiros ocupa e caçadores,
       Das damas a fermosa companhia,
       Que querem dar aos seus libertadores
       Banquetes mil, cada hora e cada dia,
       Enquanto se detêm em Inglaterra,
       Até tornar à doce e cara terra.

       (Estância 67 do Canto VI d’Os Lusíadas)



a) para ampliar, "clicar" sobre as imagens;
b) para aceder às imagens individualizadas e transferíveis seguir esta ligação.

REGATA LISBOA - BERMUDAS

(Ilhéu do Farol, Porto Santo)

Continuando com o relato do OCeano Simões Teles.

"A navegar entre 10 e 12 nós, avistamos o Farol de Porto Santo e cerca de 30 horas depois tínhamos a ilha de Palma, Canárias à vista. Antes porém tivemos um encontro no mar: o "João de Lisboa" surge no horizonte e aproxima-se de nós.
Todos se precipitam para a borda; e eis que o velho calhambeque nos diz na sua linguagem morse e pela fonia, que encontrara outro veleiro, outra barca, 30 milhas à nossa frente.
Foi um balde de água fria. Barcas como a Sagres, ou o Alemão ou o Lehmekul norueguês. Era opinião geral que devia ser o Gorch Fock. Já não seriamos os primeiros a rondar as Canárias."

A falta de informação passada pelo João de Lisboa retrata o alheamento da Marinha pela nossa regata. Não nos soube dizer qual o nome da outra barca ou se a mezena era partida ou não. Só o G.F. e a Sagres tinham mezena partida, a outra barca o Stratsraad Lehmkul tinha uma mezena inteira. Tirando o Elcano,espanhol, os restantes veleiros armavam como fragata (pano redondo no mastro da mezena). Neste dia o "Papagaio", a sua alcunha derivava não só da forma do seu apêndice  nasal como palreava permanentemente, que era o permanente das gáveas apanhou uma "piela" monumental com a triste notícia. Entretanto nós olhávamos para as "pilot charts" a tentar descortinar uma rota com mais probabilidades de vento. Na cabina de navegação havia 3 cartas; a carta de navegação dos cadetes, a carta de navegação do navio e uma terceira carta se estava guardada e que dela só tinham conhecimento directo para além do comandante e do navegador o Cap. Alan Villiers, australiano de nascimento, autor do famoso livro "A Campanha do Argus" e que ia como convidado a bordo. Este senhor era muito experiente em navios veleiros e grande admirador das descobertas portuguêsas.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS

(O Gorch Fock)

Continuando o relato do OCeano Simões Teles.

"Finalmente a nortada chegou. e a Sagres das cruzes vermelhas, inconfundível deixou as costas de Portugal, e, com todo o pano caçado e bem cheio, decidiu-se a navegar, a navegar. No tombadilho, o Comandante e oficiais mostravam-se satisfeitos.
É extraordinária a influência da velocidade no espírito da cada um e no estado geral de todos. Nessa noite houve barulho na coberta, houve discussões e manifestações de júbilo. Devíamos ir à frente. Mas a crença irredutível na vitória estava bem presente em todas as mentes.
Apenas o "20" era um céptico. A sua confiança no veleiro alemão era ilimitada. As discussões e apostas com ele cresciam.
Os serviços de bordo, os quartos aos mastros, e os quartos à ponte sucediam-se inexoravelmente. Mas todos aceitámos com vontade e satisfação as tarefas que nos cabiam".

A bordo havia três praças "manobra" que sobressaíam, todos oriundos da "Fragata": o "20", o "69" e o "fragata". Os dois primeiros eram marinheiros e o outro era grumete tendo sido promovido a marinheiro durante a regata. Eram uns "marinheirões". O "20" quando em Lisboa foi visitar o Gorch Fock com intuito de ver como era o veleiro, e ficou com uma ideia muito clara sobre o veleiro alemão, daí a sua confiança no alemão.
De notar que os OCeanos tinham duas escalas de quarto sobrepostas: quartos aos mastro e quartos à ponte. Havia dias que podíamos ter 10 horas de quarto, Nos quartos aos mastros desempenhávamos as mesmas funções das praças, e nos quartos à ponte fazíamos desde vigia, marinheiro do leme até à função de adjunto do oficial de quarto; sem esquecer as observações astronómicas, desde o crepúsculo matutino até ao vespertino, nesta actividade tínhamos o Instrutor de navegação sempre à perna ( grande camarada e formador Com. Cyrne de Castro).

domingo, 7 de junho de 2015

REGATA LISBOA - BERMUDAS

(O Christian Radich por Ben Jensen)

7 de Junho de 1964, domingo, dia de calmaria. Fazer o ponto ao meio dia e à tarde era quase repetir a posição.
Escrevia o Oceano Simões Teles:

"O navio das 12,00 às 15,00 andou uma milha, já com rumo S. No horizonte a BB, surgiu um veleiro, quase a perder de vista, disfarçado na esteira argêntea do Sol. As mais diversas hipóteses se ouvem:
- Têm ou não pano redondo no mastro da mezena?
- A mezena é ou não partida?
Era impossível ver-se, tão distante e ténue era a sua silhueta".

Agora sabe-se que não era o rival alemão. Este era apoiado por vários navios da marinha alemã que lhe davam a meteorologia real do local, e com essa informação escolhia a rota. Ele já ia à frente.
Deveria ser um dos nórdicos que usaram uma rota mais próxima do continente africano quando se dirigiam para as Canárias.
Como era domingo e não havia trabalho os OCeanos foram para a "praia do Castelo" aumentar o seu grau de bronzeamento.

EFEMÉRIDES NAVAIS


A 7 de junho de 1494 foi assinado pelos reis de Portugal (D. João II) e de Castela (Fernando e Isabel), o tratado de Tordesilhas dividindo o mundo em duas metades por um meridiano colocado a 370 léguas de Cabo Verde. O único exemplar deste documento está na nossa posse.

OCEANOS


A 7 de Junho de 1941, nasceu aquele que viria a ser o OCeano Fernando Brito Valle.
Ao camarada um grande abraço de parabéns e que repitas esta celebração por muitos anos.