sábado, 5 de junho de 2010

HOJE

Foi há 46 anos.

Ficamos mais Homens, e mais Amigos.

ALMIRANTE ROSA COUTINHO

Conheci o Almirante Rosa Coutinho em Moçambique e com ele mantive alguns contactos, durante a minha comissão de serviço nos Comandos da Defesa Marítima do Porto de Porto Amélia, dos Portos do Lago Niassa e no Comando Naval de Moçambique, no período de Março de 1967 a Maio de 1969.

O Almirante Rosa Coutinho era então capitão-tenente e Chefe dos Serviços de Dragagens do Serviços de Marinha de Moçambique, lugar que desempenhava com grande inteligência e capacidade realizadora, distinguindo-se pelos muitos e bons trabalhos de hidrografia nos portos de Moçambique em geral e, em particular, no da Beira onde terá conseguido abrir e estabilizar a respectiva barra e canais de acesso. No que concerne a infra-estruturas essencialmente militares, há que destacar as intervenções por si idealizadas, estudadas e desenvolvidas nos planos inclinados das Oficinas Navais dos Comandos da Defesa Marítima do Porto de Porto Amélia e dos Portos do Lago Niassa que possibilitaram a plena operacionalidade daqueles planos inclinados que por deficiência de concepção, projecto e construção tinham grandes limitações operacionais, em particular o de Porto Amélia, situação que dificultava a sua utilização, impedindo-a mesmo no caso das Oficinas Navais de Porto Amélia.

Os trabalhos projectados, desenvolvidos e realizados pelo Serviço de Dragagens dos Serviços de Marinha de Moçambique, chefiados pelo então comandante Rosa Coutinho, pela sua alta qualidade técnica e operacional, apesar das dificuldades em equipamento e pessoal técnico especializado, eram altamente apreciados e elogiados a nível de Governo-Geral de Moçambique, o que prestigiava a Marinha e o seu bom nome. O comandante Rosa Coutinho era frequentemente elogiado e referenciado pelas suas qualidades de militar brioso inteiramente dedicado à sua profissão de oficial de Marinha e de engenheiro hidrógrafo. A sua inegável competência técnica e profissionalismo, inequivocamente reconhecido, faziam com que com elevada frequência fosse chamado a pronunciar-se sobre estudos, projectos, obras e situações problemáticas no âmbito dos Caminhos de Ferro de Moçambique. Entidade que superintendia na exploração dos portos, aeroportos, estradas e caminhos-de-ferro de Moçambique.

O comandante Rosa Coutinho enquanto Chefe do Serviço de Dragagens dos Serviços de Marinha de Moçambique tinha uma preocupação permanente, para além dos aspectos de natureza estrutural, técnica e operacional dos projectos, construções e obras de que era incumbido e responsável, os aspectos económicos e financeiros em geral e em, particular, os respectivos custos de realização e construção. Na Catembe, com aproveitamento de sobras e recuperação de materiais, e com fundos obtidos com a venda de inertes provenientes das dragagens e desaterros dos trabalhos realizados e executados pelo Serviço de Dragagens que chefiava, construiu um bairro para alojamento de pessoal, em particular, o pessoal auxiliar. O de menos recursos e posses.

Possuidor de grande inteligência e capacidade de realização, distinguiu-se em Moçambique como militar e engenheiro hidrógrafo, granjeando grande estima e consideração nos meios militar e civil, onde deixou obra.

Foi escolhido pelos oficiais do MFA da Armada, para na sequência do movimento militar de 25 de Abril de 1974, integrar a Junta de Salvação Nacional, com 48 anos e sendo capitão-de-fragata, em consequência do seu enorme prestígio profissional e militar. Naquela data torna-se figura pública, sendo o mais jovem e menos graduado membro da JSN.

Teve uma carreira profissional de militar brioso e patriota, dedicado a tempo inteiro à sua profissão de oficial de marinha e engenheiro hidrógrafo. Na política, como se sabe, teve uma breve carreira onde como patriota coloca sempre acima de tudo os interesses de Portugal.

Possuidor de grande inteligência, coragem e determinação não hesitava perante situações inopinadas e intempestivas, correndo os respectivos riscos e assumindo as responsabilidades das suas decisões. As suas tomadas de posição e as suas decisões eram claras e isentas de ambiguidades. Tinham por objectivo primeiro, e último, o interesse do País num horizonte alargado de médio e longo prazo. Eram orientadas e desenvolvidas por um pensamento estratégico que visava para além dos interesses imediatos, de curto prazo.

Pelo seu forte empenhamento na missão de Presidente da Junta Governativa de Angola que lhe foi confiada pela JSN, é injustamente caluniado e o seu bom nome posto em causa por aqueles que querem, e teimam em ver, a suas acções e o seu desempenho no processo de descolonização de Angola ao serviço de interesses estranhos a Portugal. É uma visão premeditada, obstinada e redutora de analisar e avaliar o seu desempenho, as suas opções e o seu protagonismo no difícil e conturbado processo de descolonização de Angola. Toda a sua acção teve por objectivo fundamental, e nada mais que isso, o alcance e defesa dos interesses nacionais, jamais optando por orientações e, ou, interesses alheios à causa nacional.

Portugal para se democratizar tinha, imperiosamente, de descolonizar sendo o processo angolano o mais complicado, desde logo pela existência de três Movimentos de Libertação, com graves problemas e fracturas internas, as ingerências externas das República do Zaire e República Sul Africana / Namíbia (Sudoeste Africano) e a situação politica e militar em Portugal à data. Em 1 de Janeiro de 1975, no forte de São Julião da Barra, o então Presidente da República e Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, o General Francisco da Costa Gomes disse-me, durante uma audiência para tratar de assuntos relacionadas com as Forças Armadas Portuguesas destacadas em Angola, que a descolonização de Angola tinha de ser feita imperativamente o mais tardar até ao Natal desse ano de 1975. Isto, para que Portugal não se visse envolvido numa situação muito grave de consequências imprevisíveis para os interesses nacionais, nomeadamente, no que respeitava às Forças Armadas.

O Almirante Rosa Coutinho ao partir para Angola em finais de Julho de 1974, tinha conhecimento da situação complexa que ia encontrar de alteração permanente da ordem pública em Luanda, e não só, das dificuldades para dialogar e chegar ao cessar-fogo com os Movimentos de Libertação e da necessidade imperiosa de um acordo que, aceite e reconhecido internacionalmente, nomeadamente pela OUA (actualmente UA) e ONU, possibilitasse que Portugal procedesse à transferência de poder para os angolanos, com a salvaguarda dos interesses nacionais.

Num primeiro tempo e apesar da escassez de efectivos militares e de forças de segurança, quer em quantidade, quer em qualidade, exerce o esforço principal do exercício da sua autoridade na normalização possível e indispensável da ordem pública. Conseguida a normalização da ordem pública, e isto apesar das dificuldades por inacção e, ou, negligência dos seus mais directos colaboradores militares que tinha como Comandante-Chefe das Forças Armadas Portuguesas em Angola, e com a clarificação do processo politico e militar decorrente da demissão do General Spínola na sequência do 28 de Setembro de 1974, empenha toda a sua inteligência, esforço e sabedoria para chegar “à fala” com os responsáveis e decisores últimos dos Movimentos de Libertação. Isto, para que fosse possível à parte portuguesa negociar os indispensáveis acordos de cessar-fogo que, determinando o fim das hostilidades e actos de guerra, possibilitasse a normalização desejada e possível da situação em Angola, necessária ao início das negociações para o encontro de uma plataforma de entendimento político que fosse a base do acordo para a transferência de poder e independência.

Conseguidos os acordos de cessar-fogo e terminadas as hostilidades e acções de guerra, empenha-se no terceiro e derradeiro momento da sua missão de interesse nacional em Angola, criar as condições políticas, militares e materiais para que os três Movimentos de Libertação se encontrem em posições relativas semelhantes e equivalentes à data do início das necessárias negociações a realizar para o encontro da plataforma politica e militar que conduza ao indispensável acordo para a transferência de poder e independência. Apesar das dificuldades existentes, dos deficientes, e por vezes negligentes, empenho e profissionalismo dos seus mais directos colaboradores enquanto Comandante-Chefe das Forças Armadas Portuguesas em Angola, com a sua excepcional inteligência, visão estratégica, empenho e determinação consegue que, em consonância com os mais altos responsáveis nacionais, os três Movimentos de Libertação sejam reconhecidos internacionalmente pela OUA (actual UA) e ONU como os únicos e legítimos intérpretes da vontade e representantes dos interesses do povo angolano. Note-se, que só em Janeiro de 1975, nas vésperas da assinatura dos Acordos de Alvor, a OUA (actual UA) reconhece a UNITA como Movimento de Libertação e cessam as objecções que alguns países com assento naquela organização punham ao papel da FNLA enquanto organização nacionalista, ao pretender ser reconhecida como Movimento de Libertação.

As condições que conduziram à negociação e assinatura dos Acordos de Alvor e à sua aceitação nas instâncias internacionais OUA (actual UA) e ONU, são em muito fruto do seu esforço abnegado, do seu trabalho empenhado, da sua determinação e carácter. Foi esta a sua extraordinária interpretação e elevado trabalho no desempenho da missão que lhe foi confiada pela Junta de Salvação Nacional. Contexto onde sempre se portou e comportou, de forma clara e inequívoca, como português patriota e defensor dos interesses nacionais. Jamais, o seu envolvimento no processo de descolonização de Angola, enquanto militar de Abril, se desviou do espírito de Abril e dos seus valores, e se colocou ao serviço de interesses alheios aos de Portugal.

Esta é a minha homenagem ao Almirante Rosa Coutinho militar valoroso e patriota, marinheiro brioso e profissional a tempo inteiro a quem a Marinha muito deve. Cidadão dedicado, interessado e entregue aos valores de Portugal.

Até sempre camarada. Bem haja Senhor Almirante Rosa Coutinho

terça-feira, 1 de junho de 2010

Pro memória

Para aqueles que ficam em Lisboa nesta semana de ponte, recordo que podem ir à abertura da minha exposição no Clube Militar Naval na sexta-feira às 1800. Aos outros convido a ir entre as pontes.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

ORIGINALIDADES

Gosto muito de ler os autores que traduzem brilhantemente o que me vai na alma e sou incapaz se o exprimir de forma conveniente.
Assim, com a devida vénia, transcrevo o último parágrafo do artigo de José Carlos de Vasconcelos, publicado na revista Visão, de 27 de Maio (lamento o atraso, mas só dedico às leituras os fins de semana):
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PORTUGAL TEM VÁRIAS originalidades, a mais recente das quais será ter passado a haver, de par com outras “instituições inorgânicas”, chamemos-lhe assim, a dos Antigos Ministros das Finanças. Trata-se de um grupo para discorrer sobre as teorias de Keynes, Friedman ou Krugman, para recordar os tempos de passagem pelo Governo ou para fazer umas grandes almoçaradas? Nada disso. Os Antigos Ministros das Finanças aparecem em tudo o que é sítio, desde os múltiplos média, com destaque para as televisões, às antecâmaras de diversos poderes e ao Palácio de Belém, a ensinarem ao País como se deve salvar o País. O País que este péssimo de Finanças, como se sabe, não apenas pelo que se passa agora, antes também porque, ao longo de décadas, eles, ou quase todos eles, o ajudaram a afundar quando foram ministros das Finaças. Com o devido respeito por alguns, que aprecio, isto é, pelo menos, surrealista!”.
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Eu acrescentaria apenas, como dizia um nosso camarada mais antigo: “seria ridículo, se não fosse trágico!”.
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Tenham uma boa semana de trabalho, ou de merecido descanso!

domingo, 30 de maio de 2010

"Estórias da nossa vida"

A Crise. Persiste!...

Em Setembro de 2007, teremos tido os primeiros sinais indicadores de pré crise, após a “descoberta” das “subprime”(hipotecas de altíssimo risco). A partir desta data, começou a percepção de que algo não estaria bem, como os políticos e demais comunicadores do “interesse público” vinham dizendo. E, se bem que lentamente, começou a diminuir a “confiança”, “ingrediente” fundamental à manutenção da ligação e interacção de todos os elementos constitutivos do sistema. Diminuição e quebra que se acentua, em particular, desde o Estio de 2008, quando tiveram início as grandes injecções de capital, directas e indirectas, em variadas instituições financeiras públicas e privadas, nos “USA” e na “UE”. ”Reengenharia Financeira” realizada pelos governos directamente e, ou, por instituições privadas com o aval do Estado. Estas intervenções, só por si, indiciam a tendência para uma concentração, se bem que de forma suave e lenta, nos mercados financeiros. Estas intervenções, tão contrárias aos princípios do não intervencionismo estatal, tão do agrado dos poderes instituídos, e que impuseram a adopção de políticas e medidas como moeda de troca das ajudas públicas, são divulgadas e justificadas como um “mal menor".

Começamos a ver, com alguma frequência, tentativas para convencer a opinião pública de que o pior já terá passado. Isto, para induzir no imaginário do cidadão de que já se descolou da estagnação e se começou a entrar na “antecâmara” do crescimento. Mas, será mesmo assim?

Com o súper endividamento e a falta de liquidez, o desemprego crescente, a rondar os 11%, a diminuição do poder de compra da população, ainda existirão meios para acorrer às situações de necessidade e, ou, tábuas de salvação? Ou assistiremos neste ano de 2010, infelizmente para desgraça nossa, a um contínuo definhar da actividade económica que se acentuará, “sem apelo nem agravo”, no último trimestre do ano? Será que então chegou a “CRISE”, uma queda profunda e inexorável, com deflação e depressão, em nada semelhante ou comparável com as crises a que assistimos, desde o choque petrolífero de 1973/1979? Semelhante nos efeitos à dos anos trinta do século passado? O “Grande “Crash de 1929”.

Oxalá as minhas dúvidas e interrogações não passem disso mesmo.

Passem uma boa semana. Até sempre. E, um Abraço.

Postal de Goa (XXVII)

A GALERIA DOS VICE-REIS E GOVERNADORES DA ÍNDIA

De entre o património móvel que os portugueses deixaram em Goa, destaca-se o conjunto de pinturas conhecido por Galeria dos Vice-Reis e Governadores da Índia, que até 1961 se encontrava no Palácio do Hidalcão em Pangim (sede do Governo do Estado da Índia) e que, actualmente, se encontra no Archaeological Museum, instalado no antigo Convento de S. Francisco em Velha Goa.


Esta Galeria foi criada em 1547 por iniciativa de D. João de Castro, o 13º governador e 4º Vice-Rei da Índia. Foi ele que encarregou o cronista Gaspar Correia de providenciar a execução dos retratos de todos os Vice-Reis ou governadores seus antecessores, que o cronista a todos conhecera pessoalmente.
O trabalho foi feito por “hum pintor homem da terra” e Gaspar Correia, deixou referido que, com as informações que dera ao pintor, os retratos saíram tão perfeitos que, quem os visse, logo identificava cada um deles.
A Galeria parece não ter tido sequência porque Fernão Teles de Menezes, o 28º governador da Índia, em 1581 teve que mandar pintar dez retratos para actualizar a Galeria. Porém, com maiores ou menores interrupções, com melhores ou piores retratistas, a Galeria foi sendo regularmente completada e, em 1961, era constituída por cerca de uma centena de retratos pintados sobre madeira ou sobre tela, com dimensões médias de 2,64m x 1,32m.
As severas condições climáticas de Goa, designadamente a sua excessiva humidade durante os meses da monção, provocaram a deterioração de muitas pinturas, o que implicou muitas intervenções de restauro. A mais famosa delas foi feita em finais do século XIX pelo Capitão Manuel Gomes da Costa, que é criticada por todos os historiadores de arte que a ela se têm referido e que “se tornou o paradigma das brutalidades experimentadas pelas telas da Galeria”.
A degradação das pinturas acentuava-se e era muito preocupante, pelo que se sucederam as pressões para que a colecção fosse salva. Nesse contexto, em 1953 o Ministro do Ultramar autorizou que, com a finalidade de serem restaurados no Instituto de Restauro de Lisboa, viessem para Lisboa 6 retratos - D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama, D. João de Castro, Diogo Lopes de Sequeira e D. Miguel de Noronha - e, mais tarde, o retrato de D. Francisco Mascarenhas.
Em 1961 ainda se encontravam em Lisboa os retratos de D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque e D. Francisco Mascarenhas, que foram integrados nas colecções do Museu Nacional de Arte Antiga.


D. Francisco de Almeida, D. João de Castro e Afonso de Albuquerque

O valor histórico, artístico e iconográfico da Galeria é indiscutível e, por isso, ao longo dos séculos tem sido a fonte inspiradora de muitas cópias, reproduções e réplicas, sendo de referir, por exemplo, as cópias dos retratos de Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque e D. João de Castro, existentes no Museu de Marinha em Lisboa.