sexta-feira, 14 de maio de 2010

De veludo...

Mais uma vez o cargo de Director-Geral da Política de Defesa Nacional é preenchido por um dipomata, na senda de uma tendência que se afirmou nos últimos anos de colocar diplomatas fora do seu Ministério. Assim, temos visto estes senhores em lugares de Direcção- Geral e Sub-direcção- Geral, Secretaria de Estado e Chefes de Serviços de Informações, sempre com os brilhantes resultados que conhecemos. Desta vez o nomeado é Conselheiro de Embaixada, o que pode significar que a importância dada ao cargo é cada vez menor, ou, talvez, que arranjaram uma sinecura para um boy ir ganhar como director-geral. Não consta que algum diplomata tenha ocupado um lugar de indio no MDN, nem que um militar tenha sido director-geral no MNE. Ou será que Luís Amado, ex-MDN, encontrou aqui maneira de resolver os seus problemas de gestão de pessoal?

domingo, 9 de maio de 2010

Dia da Victória




Pela primeira vez tropas ocidentais desfilaram na Praça Vermelha no dia da celebração da Victória na Europa. Impensável há pouco tempo, ainda cria anticorpos em muitos saudosistas da União Soviética e veteranos da guerra.

Postal de Goa (XXV)

AS MANSÕES GOESAS


Um dos aspectos materiais mais eloquentes da influência cultural portuguesa em Goa são algumas centenas de mansões ou casas senhoriais ou palácios, muitas delas edificadas no século XIX ou mesmo desde há dois ou três séculos.
No século XVI o Estado da Índia não era um espaço geograficamente definido, mas um conjunto de territórios litorais dispersos, de fortalezas e feitorias, de pessoas e interesses, que se estendiam desde o cabo da Boa Esperança até ao Japão. Por vezes, diz-se que era uma entidade sem território e sem administração, que tinha por capital o convés de uma nau e que era dirigida por um Vice-Rei.
Um século depois da chegada dos portugueses à Índia a situação alterara-se. Goa era uma das maiores cidades da Ásia e nela convergia o importante comércio do Índico. Atraidos pela prosperidade que era proporcionada pelos altos cargos públicos e pela governança das dezenas de estabelecimentos localizados nas orlas marítimas, muitos fidalgos portugueses deixaram o Reino e partiram com destino à Goa Dourada. Levaram consigo novos modos de vida e novas necessidades. Estabeleceram-se e muitos não regressaram. As suas residências passaram a ser um símbolo de um estatuto social elevado e a constituir um sinal de prosperidade e de exibicionismo. Nasciam as grandes mansões goesas.
Depois das arquitecturas militar e religiosa, desenvolvia-se uma arquitectura civil para satisfazer a necessidade de afirmação dessa fidalguia, a qual foi transmitida às camadas superiores da sociedade local, sobretudo a partir de meados do século XVIII.
No século XIX, quando o Estado Português da Índia viveu períodos de grande dinamismo intelectual e de grande prosperidade económica, a sociedade goesa afirmou-se com grande vitalidade.
Diversificados factores explicam essa evolução, mas seguramente que as reformas pombalinas e o estabelecimento do regime liberal estão na primeira linha da mudança, para além de outros aspectos, como o comércio com Macau e com os outros teritórios ultramarinos, incluindo o Brasil.
As centenárias mansões já existentes ou então construídas reflectem essa prosperidade e constituem a chamada arquitectura indo-portuguesa, ainda hoje impressionando pela sua dignidade, luxo e elegância. Os especialistas designam-nas por Palácios de Goa (Helder Carita, Quetzal Editores, Lisboa, 1995) e por Houses of Goa (Gerard da Cunha, Architecture Autonomous, Goa, 1999).
De acordo com estes especialistas, essas casas agregam elementos funcionais e decorativos de origens diversas, sobretudo portugueses e indianos – os grandes salões, escadarias, balcões, varandas, portas, pilares, colunas, capitéis, entre outros elementos figurativos de diferentes influências.
No entanto, serão as varandas e as janelas os elementos que mais tipificam as mansões goesas, com a multiplicidade das suas formas e elementos decorativos.
Na realidade, as janelas são, porventura, o elemento que mais directamente estabelece uma relação de intimidade entre a casa e o seu ambiente exterior, assumindo formas muito diversas. Muito atraentes e muito coloridas, as janelas são armadas numa grelha de madeira preenchida por carepas (placas de ostra) que são colocadas em escama e que substituem o vidro que antigamente não existia. Esta solução permitia uma luminosidade suave no interior das casas e a circulação do ar, o que era muito importante num clima muito quente e muito húmido.
Actualmente, as mansões goesas são um símbolo identitário, mas também uma expressão da interpenetração cultural entre Portugal e Goa, pela via da arquitectura civil. Contudo, a sua manutenção é um encargo cada vez mais difícil de suportar para os seus proprietários, muitas vezes ausentes de Goa. Daí que, enquanto algumas casas resistem e continuam a estar nas mãos da mesma família desde há muitas gerações, outras estão a degradar-se e a caminhar para a ruina, devido ao abandono e à acção conjugada do calor, das chuvas e da invasão da floresta.
Uma terceira via está agora a consolidar-se em relação a este património, quer através de modalidades de turismo de habitação, quer através da venda de muitas destas “portuguese houses” aos milionários indianos que, cada vez mais, elegeram Goa como a sua Europa ou a sua Riviera Francesa.