sexta-feira, 5 de março de 2010

Pescadores e segurança


Diz o jornal que pescadores e embarcações vão ter novos meios de segurança e salvamento este ano. Serão 4500 fatos flutuantes e outros equipamentos comprados por ajuste directo por cerca de 40 milhões de euros. Não farei comentários ao negócio que já se desenha, mas limito-me a esperar com curiosidade para ver, na próxima época do robalo, quantos barcos se estampam na praia e quantos naufragos traziam o fato vestido. O problema não é material. É da falta de instrução e de habilitações dos pescadores e mestres, e da completa irresponsabilidade destes.
Curiosamente, os jornais nunca dizem que os barcos andavam a pescar junto à rebentação.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Gampará

Recebido (correio electrónico) o seguinte comentário:

"Caros Camaradas,

Como é habitual, acompanho este vosso blog com muito interesse.
Hoje fui agradavelmente surpreendido pela excelente descrição dos acontecimentos ocorridos em Gampará, na Guiné.
Sou da Força Aérea e nunca estive em comissão naquele território, mas, nas minhas investigações para a História, tenho tido oportunidade de tomar conhecimento com o “inferno operacional” que lá se viveu.
A passagem dos anos e a honestidade dos intervenientes leva-me a não duvidar do relato que, com grande isenção, está feito no vosso blog. Mais, não duvido do sistema “punitivo” que então se usava, por ter conhecimento de outros semelhantes noutros teatros de operações. Era a mentalidade criada pelo Estado Novo — actuar pela calada, sem ter a frontalidade de arrostar com as consequências — em oposição à que havia sido cultivada durante a 1.ª República.
Nunca tive — se calhar, felizmente — oportunidade de conhecer de perto o general Spínola, mas não me espanta a sua decisão quanto à Marinha, dado que havia, por certo, moldado o seu carácter segundo princípios usuais na instituição onde prestou serviço alguns anos e que, na época, era um dos esteios policiais do Estado Novo: a GNR. A sua atitude contrasta, em oposição, com a de um distinto general, também africanista, e adepto de um profundo rigor militar — Pereira d’Eça, o soldado que não sabia rir — combatente e comandante, em 1915, no sul de Angola que, pela muita admiração tida pelo valor fogoso das tropas da Armada em campanha, deixou, em testamento, a sua espada à Marinha de Guerra. É o rigor de carácter que marca os Homens.
Os meus parabéns por esta memória que o vosso blog e o camarada Ferreira da Silva deixa para quem quiser fazer a História das “coisas pequenas” da Guerra Colonial.
Os meus melhores cumprimentos para o vosso curso,
Luís Alves de Fraga
Coronel da Força Aérea (R)"

Ainda a Guiné

Recebido (correio electrónico) o seguinte comentário:

"Cá estou novamente a invadir o vosso espaço, mau hábito que procurarei emendar se antes não me emendarem .
Pouco ou nada do relato do Ferreira da Silva constituiu novidade. Muitos e foram mesmo muitos na Marinha que, na altura, fizeram sentir, de uma forma ou de outra, a ignomínia da situação. Acredito que, não tivesse o Comandante da Defesa Marítima sido obrigado a terminar antecipadamente a comissão, não teria escrito, mais tarde, a carta que escreveu cujo destinatário, só aparentemente era o DFE. Sem pretender entrar em polémicas discordo em absoluto da opinião do Ferreira da Silva de que a falta de oficiais superiores para o comando das forças de fuzileiros fosse da responsabilidade do Comandante Chefe, julgo que ele somente aproveitou a incapacidade e a falta de interesse da Marinha. Por essa altura recordo - me de duas ou três operações em que as forças da Marinha, de dimensão muito razoável, tiveram de ser comandadas por 1º Tenentes, que eram do mesmo curso de alguns dos intervenientes .
Não extraiam deste meu arrazoado qualquer tentativa de enaltecimento do Comandante Chefe pessoa por quem não tinha, ao tempo, como aliás ainda hoje não tenho qualquer apreço.

Um abraço do E. Gomes
"

Postal de Goa (XIX)

O International Film Festival of India
e o Palácio dos Maquinezes

O IFFI – International Film Festival of India é o mais antigo e mais prestigiado festival de cinema da Índia que, por sua vez é, provavelmente, o maior produtor mundial de filmes. Na cidade de Bombaim (Mumbai) produzem-se centenas de filmes por ano falados e cantados em hindi e em outras línguas nacionais, pelo que a indústria cinematográfica baseada na cidade é popularmente conhecida por Bollywood.
O IFFI começou a realizar-se em 1952, a partir de 1975 tornou-se anual, em 2004 transferiu-se para Goa e, em Novembro de 2009, teve a sua 40ª edição, que até apresentou uma retrospectiva de homenagem a Manoel de Oliveira.



A transferência do IFFI para Goa foi um enorme benefício cultural e turístico para a cidade de Pangim e o Governo de Goa realizou significativos investimentos para o receber: criou a Entertainment Society of Goa (ESG) com a missão de organizar o festival e promover Goa como destino turístico-cultural, recuperou o Palácio dos Maquinezes para alojar a ESG, construíu um moderno complexo de salas de cinema (INOX) e recuperou o edifício da antiga Escola Médica de Goa, para utilização com fins culturais.


O Palácio e a Capela dos Maquinezes, o novo cinema INOX e a antiga Escola Médica de Goa

A fixação do IFFI em Goa deu origem, portanto, à recuperação do Palácio dos Maquinezes e do edifício da antiga Escola Médico-Cirúrgica de Goa, o que constituiu uma importante valorização patrimonial da capital de Goa.
A história do Palácio dos Maquinezes não é bem conhecida. Gaspar da Costa de Ataíde era um fidalgo natural de Lisboa que tinha a alcunha de Maquinês, provavelmente por ter vivido na cidade marroquina de Mequinez (Meknes), tendo sido designado capitão-mor das naus da Índia por carta de 17-3-1701. Era casado com D. Catarina Rosa de Lima e Teive e tiveram um filho de nome Cristóvão da Costa de Ataíde e Teive, que manteve a alcunha do pai. Com ele nasceu o apelido Costa de Ataíde e Teive que perdurou em Goa por várias gerações de luso-descendentes.
Um dos seus filhos, Francisco da Costa de Ataíde e Teive, nascido em Lisboa em 1736, embarcou para a Índia como guarda-marinha voluntário a bordo da nau “Santíssimo Sacramento”, que saiu de Lisboa em 1751. Levou consigo a alcunha familiar de Maquinês, ter-se-á instalado em Pangim, voltado ao Reino e regressado a Goa, mais tarde. Foi capitão-de-mar-e-guerra da Marinha Real de Goa e vivia numa grande casa com capela da invocação de Nª Sª das Dores, embora fosse conhecida simplesmente por Capela dos Maquinezes. Faleceu em Goa em 1821, estando sepultado em campa brasonada na Igreja de S. Francisco de Assis em Velha Goa e, de entre a sua numerosa prole, destaca-se o facto de 6 dos seus filhos, que continuaram a ser conhecidos por Maquinezes, terem feito carreira na Marinha Real de Goa, que foi oficialmente extinta em 1812.
O seu filho Cristóvão nasceu em Lisboa em 1759 e chegou a Goa em 1789, tendo sido Chefe de Divisão da Marinha Real de Goa.
O seu filho Diogo nasceu em 1760, em 1786 foi habilitado em Goa com a Aula de Marinha e veio a ser Intendente-geral da Marinha entre 1800 e 1804 e entre 1805 e 1806.
O seu filho José Maria nasceu em 1762, em 1785 foi habilitado com a Aula de Marinha de Goa, foi Chefe de Divisão da Marinha de Goa e Lente da Aula de Marinha.
O seu filho Manuel nasceu em 1764, foi habilitado em Goa com a Aula de Marinha em 1787 e em 1819 foi promovido a capitão-de-mar-e-guerra.
O seu filho Vicente em 1798 foi habilitado com a Aula de Marinha de Goa.
O seu filho Francisco António nasceu em 1776, foi promovido a guarda-marinha em 1792 e a capitão-de-mar-e-guerra em 1819*.


Os Costa de Ataíde e Teive ou Maquinezes eram socialmente poderosos, mas em poucos anos ficaram sem descendência directa. A sua casa apalaçada e alguns dos seus anexos funcionaram depois como hospital militar e, quando em 1842 foi criada a Escola Médico-Cirúrgica de Goa, a nova escola ocupou exactamente essas instalações, que mais tarde foram ampliadas.
É a mais antiga escola de medicina de toda a Ásia. Em 1963 adoptou a designação de Goa Medical College e, em 1986, foi integrada na Universidade de Goa, tendo-se instalado em Bambolim, nos arredores de Pangim e nas proximidades do Rajiv Gandhi Hospital.
O antigo edifício da Escola Médico-Cirúrgica de Goa (vulgarmente conhecido por Old GMC) e o Palácio dos Maquinezes constituem actualmente um complexo vocacionado para o cinema e para outras actividades culturais, tendo o seu restauro permitido preservar dois importantes edifícios com história.

*Estas notas foram recolhidas de “Os Luso-descendentes da Índia Portuguesa”, Jorge Forjaz e José Francisco Noronha, Fundação Oriente, Lisboa, 2003

quarta-feira, 3 de março de 2010

Navegação... em terra firme.

Conforme difundido na semana passada para cada um dos Oceanos contactáveis pela Net, vamos realizar mais uma sessão de iniciação/aperfeiçoamento à navegação na “Água Aberta”, aproveitando a paciência e ciência do LSN.
Estão convidados a comparecer todos os camaradas doutros mares que o desejem, até ao limite da capacidade sobrante da sala onde se vai realizar o evento,
Dia e local: 9 de Março, das 10 00 às 12 00, no CNED (por cima da Academia de Marinha – Edifício da Marinha no T. do Paço).
Para maior eficácia da sessão, é importante que cada um leve identificadas as suas dúvidas e o seu endereço electrónico.
Como o tempo não é muito, convinha que fizessem um pequeno esforço para estar lá mesmo às 10 00. Às 12 00, seguiremos para o almoço mensal no local habitual.
Por motivos logísticos, agradecia que manifestassem previamente a vossa intenção em comparecer.

Operação ONÇA A - O “castigo” do general ao DFE 8 (15/16 de Maio de 1972)





Aquilo a que chamámos "operações de castigo" foram um recurso utilizado pelos comandos para resolver de forma arbitrária problemas de natureza disciplinar ou conflitos entre unidades ou grupos de militares de vários ramos. Não quero pronunciar-me sobre a sua validade ou não, mas quero constatar que de uma forma geral os infractores individuais ficaram quase sempre por castigar, quem pagou foi o colectivo e quando houve mortes possivelmente foram de homens inocentes. Claro que estas operações aparecem sempre com uma capa igual a todas as outras. No que se refere a esta operação, claro que o meu objectivo principal foi naturalmente tirar o destacamento do "buraco" o mais depressa e com o menor número de danos possíveis.

O DFE estava acantonado há poucos dias pela segunda vez em Gampará. A sua actuação operacional consistia em fazer patrulhamentos ofensivos na península a norte do rio Pedra Agulha, com uma ou outra incursão a sul deste rio que era considerada região libertada.
O acantonamento consistia num quadrado de covas de lobo. O DFE 8 ocupava um dos lados sendo os outros ocupados por um destacamento de fuzileiros africanos e uma companhia do exército. Em cada um dos lados do quadrado existia uma bateria de bidões para banhos, diariamente abastecida pelo Exército.
No regresso de um dos patrulhamentos, quando o pessoal pretendia tomar banho na bateria de bidões que ficava do seu lado, verificou que esta não tinha água pelo que procurou solução nas outras baterias existentes. Eu, ao verificar que não tinha água para me lavar e porque me sentia muito cansado, resolvi deitar-me e passar pelas brasas.
Tinha já adormecido quando fui acordado por um soldado que me disse que o comandante do COP o mandara chamar-me. Dirigi-me à sua tenda e recebo de imediato a ordem para enviar para Bissau, sob prisão, um marinheiro do destacamento. Quis saber a razão tendo recebido como primeira resposta que cumprisse a ordem que depois me diria as razões. Insisti e soube que esse marinheiro tinha agredido um alferes.
Regressado ao meu lado do quadrado, onde o pessoal se encontrava agrupado em estado de agitação e instabilidade, ordenei a dispersão e o agrupamento das equipas de combate nos lugares que lhe estavam destinados. Falei com o marinheiro autor da agressão e com mais algumas testemunhas e cheguei à conclusão que a acção de agressão tinha sido a resposta a uma agressão do alferes que o pretendia expulsar da bateria de bidões do seu lado.
Resumidamente, quando recebeu a ordem para "ir para o seu lado, que aquele era deles" o marinheiro teria respondido qualquer coisa como "não sabia que aqui houvesse dois lados e que só conhecia dois lados, o nosso e o do PAIGC". A esta resposta o alferes teria esmurrado o marinheiro e este teria naturalmente reagido. À margem, diga-se que este marinheiro ia na sua terceira comissão na Guiné e era já condecorado.
Tendo dado ordem de prisão ao marinheiro, dirigi-me à tenda do comandante do COP informando-o de que o marinheiro se encontrava sob prisão, mas que, em virtude das informações que tinha recolhido, ele teria sido primeiro agredido pelo alferes pelo que exigia que se levantasse um processo de averiguações. Seguiu-se uma pequena altercação em que eu cheguei a ser acusado de insubordinação. Retirei-me para o meu lado do quadrado sem que qualquer decisão tivesse sido tomada, mas com a ameaça de que iria comunicar superiormente o sucedido.
Na sequência disto, creio que foi enviada ao Comando-chefe uma mensagem de que não conheço o conteúdo (digo creio, pelo que ela não me foi enviada para conhecimento e penso que também não teria sido enviada para o CDMG). Pouco depois aterrou um helicóptero com o general Spínola que se reuniu imediatamentecom o comandante do COP. De seguida fui chamado e recebi ordem para partir imediatamente para sul com o destacamento em direcção a Buba acrescentando que receberia já no mato a ordem de operações para prosseguir. Coloquei objecções relacionadas com o facto de não possuir informações sobre as áreas a atravessar e de não poder por isso organizar o destacamento para enfrentar as diferentes situações que poderia encontrar. Depois de uma pequena troca de palavras o general mandou o seu helicóptero ir a Bissau buscar o Almirante Moura da Fonseca e deu-me ordem para me retirar.
Quando o helicóptero chegou com o Almirante fui recebe-lo e tentei informá-lo da situação, mas penso que ele nem sequer me ouviu e seguiu rapidamente ao encontro do general. Não assisti a conversa que tiveram porque me foi ordenado que ficasse fora da tenda. Pouco depois fui chamado e recebi ordem para ficar estacionado em Gampará até receber ordens para efectuar uma operação. É aventada a hipótese dela ser realizada sob o comando de um oficial superior da Marinha. Coloco algumas objecções e sugiro uma alternativa ao Almirante Moura da Fonseca. Não é tomada qualquer decisão sobre quem comandará a operação.
Depois disto, recebo ordem para formar o destacamento ao qual o general Spínola se dirige de uma forma que, pessoalmente, considerei inqualificável e ofensiva não só para o destacamento, mas sobretudo para a Marinha. Como não recordo os termos exactos desse discurso e o general mandou imediatamente desgravá-lo, não quero correr o risco de reproduzir o seu teor.
Depois deste discurso o general e o almirante regressaram a Bissau.
No dia seguinte um oficial superior dos paraquedistas, de que não me lembro o nome, apareceu em Gampará com as instruções e ordem de operações para a realização da operação que foi designada ONÇA A. O destacamento embarcou depois na LFG Bombarda, comandada pelo Conceição, que fundeou na foz do Curubal de onde partiu o destacamento para a operação.
Em relação à operação, como encontrei uma cópia do meu relatório (não tenho o relatório feito pelo BCP) que, naturalmente, não reflecte, no seu laconismo, o estado de espírito, o clima e as vivências realmente experimentadas no decorrer da operação, mas como também não quero correr o risco de uma descrição muito subjectiva, acho melhor juntar uma cópia, embora o seu estado de conservação não seja famoso.
Esta breve descrição dos acontecimentos mostra bem até que ponto a retirada do comando operacional dos destacamentos à Marinha condicionou a sua actividade na Guiné e as dificuldades que muitos jovens primeiros-tenentes, comandantes de destacamentos, tiveram que enfrentar para preservarem as suas unidades e manterem a sua dignidade e a da Marinha sob muitos comandos do Exército que prefiro não qualificar.
Quando num post anterior escrevi que concordava com o Encarnação Gomes que a Marinha não tinha oficiais superiores para comandarem a actividade operacional dos destacamentos é justo se diga que isto é o resultado do comando do general Spínola e da passividade da Marinha que não deu oportunidades para que estes se formassem e mostrassem o seu valor e competência.

terça-feira, 2 de março de 2010

Texto do Almirante Moura da Fonseca


Aqui segue cópia do texto do Almirante Moura da Fonseca a que se refere o artigo sobre o DFE 12.

Contrariamente ao que é dito no artigo, o Almirante Moura da Fonseca não me ofereceu qualquer espécie de solidariedade na altura em que o general Spínola ordenou a operação, apesar de eu lhe ter chamado a atenção para a necessidade de analisar os acontecimentos que estavam na origem dessa decisão através de um ponto de vista diferente do que estava a ser seguido.
Depois do discurso do general ao destacamento em formatura deve ter tomado consciência do que se estava a passar e na operação acompanhou numa lancha rápida os botes em que o seguia o destacamento, a subida do rio Curubal até ao ponto de desembarque. Na altura considerei esta atitude quixotesca, perigosa e mais uma preocupação com que tive de lidar. É verdade também que isso ajudou a elevar a moral do pessoal do destacamento e, porque não aconteceu nenhum azar, teve efeitos positivos.
O Almirante Moura da Fonseca estava ainda há pouco tempo na Guiné e nessa altura as suas relações com o general Spínola pareciam muito boas. Só mais tarde e por razões que desconheço se deterioraram.
O texto anexo foi escrito num livro de memórias que me ofereceu é mais tarde entregue (julgo que com algumas pequenas alterações pois não consegui encontrá-lo) a todos os elementos do destacamento durante um dos almoços anuais que o pessoal realiza. Ao saber que íamos realizar esse almoço e porque se comemoravam na altura, creio que os 20 anos da operação, manifestou a sua vontade de estar presente e falar a todo o pessoal. Tive muito gosto em convidá-lo e julgo que o ter estado presente e ter falado lhe proporcionou um momento de prazer.

O DFE 12, a Marinha e os fuzileiros na Guiné

O Barbosa no seu post sobre o artigo referente ao DFE 12 sugere que eu esclareça. O Encarnação Gomes também enviou uma mensagem com alguns comentários. Não sei o que possa esclarecer, mas aqui vão algumas dicas.

Cheguei à Guine em Julho de 1971 e o DFE 12 foi o primeiro destacamento com que contactei. Foi com ele que fui que fui ao "mato" pela primeira vez integrado como observador. Nessa operação não tivemos contactos de fogo mas fiquei com uma boa impressão sobre a forma como o DFE 12 se deslocava no mato e da qualidade dos seus oficiais. Vivi num reembarque do DFE 12 em botes, num afluente do rio Cacheu, o primeiro ataque de abelhas e experimentei os seus efeitos devastadores. Foi também um grupo de combate do DFE 12, comandado pelo tenente Lobato, que nos ia recolher em botes, que acabou por saltar em terra e proteger o nosso reembarque numa situação complicada depois de uma operação na margem sul do Cacheu. Tenho uma opinião francamente positiva do tenente Lobato, com base na convivência de alguns meses, quer como oficial miliciano quer como combatente.
Em relação às operações referidas no artigo e aos seus resultados julgo que a melhor forma de validar a informação será recorrer aos relatórios que devem andar perdidos por algum arquivo. No entanto, tanto quanto a minha memória recorda, a maior parte delas foram objecto de conversa recorrente nas messes dos aquartelamentos, câmaras dos patrulhas e nos encontros esporádicos quando nos deslocávamos a Bissau.
A descrição dos episódios e peripécias dos combates é sempre filtrada pela subjectividade do narrador pelo que corresponde sempre a uma vivência pessoal e intransmissível. Estou por demais habituado a descrições "mais ou menos épicas" de episódios de guerra e tenho-as por isso como naturais para quem as viveu efectivamente.
Todos nós, nos navios ou em terra, fizemos e vivemos uma parte importante da história do nosso país no período em que decorreu a guerra colonial. Por muito que as nossas visões sejam limitadas ou mesmo distorcidas considero que temos o direito e o dever e que será útil para a reconstituição desses tempos, o testemunho das nossas experiências. Nesse sentido penso que o artigo do tenente Lobato, com todas as limitações que lhe apontemos, é corajoso e oportuno podendo desencadear um processo de discussão capaz de nos levar a uma reavaliação crítica e não institucional da actuação da Marinha e dos seus Fuzileiros na Guiné.
Quando cheguei à Guiné o comando operacional dos destacamentos estava já atribuído ao Exército. Tirando duas ou três situações em que através de um diálogo franco com o comandante operacional, o empenhamento operacional do DFE 8 foi orientado de forma a tirar o maior partido das suas características e potencialidades, em todas as outras situações, os majores, tenentes-coronéis e coronéis que me comandaram não conseguiram distinguir um destacamento de fuzileiros de um companhia do exército e empenharam, de uma forma geral, o destacamento casuisticamente, sem objectivos e planos a curto ou médio prazo e/ou para florear as estatísticas do seu Comando Operacional e/ou as suas próprias estatísticas pessoais com vista àquilo a que, no artigo em questão, se designa por "honrarias de combatente".
Por seu lado, a Marinha que detinha o comando administrativo, também com algumas raras excepções, via os destacamentos como um encargo que só dava "chatices", sem colher qualquer louro dos seus sucessos que revertiam naturalmente para os comandos operacionais do Exército.
O Encarnação Gomes refere que na Marinha não havia oficiais superiores com capacidade para comandar operacionalmemnte os fuzileiros. Concordo com ele. Para a operação "de castigo" a que se refere o Serafim Lobato inicialmente aventou-se a hipótese dela ser comandada por um oficial superior da Marinha. Coloquei imediatamente reticências a essa possibilidade e até indiquei como alternativa um camarada primeiro-tenente ex-fuzileiro para essa função (naturalmente esta solução não foi aceite). O comando da operação acabou por ser atribuído (felizmente) ao Batalhão de Paraquedistas.
Vivi quase toda a minha comissão na Guiné no mato com uma ou outra incursão esporádica e muito curta a Bissau. Não tenho por isso conhecimento da "intriga" político militar dos Estados-Maiores e das messes de Bissau.
Era evidente que o general Spínola não gostava da Marinha e dos fuzileiros em particular, mas também era evidente a incapacidade do Comando da Marinha em dar uma resposta efectiva a essa situação. Pessoalmente não tenho uma opinião muito favorável quanto a forma como o general conduziu alguns dos aspectos da guerra e da política na Guiné, mas também penso que dadas as circunstâncias que se viviam não tinha grandes alternativas de procurar outras soluções.
Este post já vai longo. Vou tentar reconstituir as circunstâncias e pormenores relacionadas com a operação "Onça A" a que se refere o artigo do tente Lobato.

Soberania

Finalmente, após a leitura de diversos periódicos nacionais, fiquei a saber quem manda em Portugal:
São os "mercados" e as "agências de "rating"".

Aproveito a oportunidade para acrescentar que os Inimigos de Portugal foram identificados: são os "especuladores".

Apenas ignoro quais os efeitos desta mudança de paradigma (que palavra tão bonita, aconselhando eu a sua utilização por tudo e por nada e a torto e a direito) na definição das novas missões a atribuir às nossas Forças Armadas e quais os meios mecessários à sua execução.

Tenham uma boa semana de trabalho!

Um abraço,

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Postal de Goa (XVIII)

OS CRUZEIROS DE GOA

No território de Goa, sobretudo nas regiões tradicionalmente conhecidas por Velhas Conquistas, a paisagem natural é dominada pelo mar e por extensos areais, alguns rios e muitos canais, largas manchas de coqueiros e extensas várzeas de arrozais, mas na paisagem humanizada dessa região destacam-se as torres brancas das igrejas.
Porém, um outro aspecto peculiar da paisagem goesa são os inúmeros cruzeiros (crosses) que se encontram à beira das estradas, na margem dos rios, nos outeiros, nas várzeas e, cada vez mais, no interior das povoações e no pátio das casas. É difícil encontrar um local, urbano ou rural, onde não haja a presença de um cruzeiro que, tal como acontece com o tulôss hindu - um pequeno arbusto sagrado que cresce numa peanha - identificam a crença religiosa dos goeses e se integram harmoniosamente na paisagem.


Os cruzeiros apareceram em Goa, provavelmente em meados do século XVI, associados à cristianização e às suas práticas, quer por iniciativa das entidades religiosas que os colocavam nos adros das igrejas, quer por iniciativa individual ou da comunidade para cumprir promessas, para reconhecer e agradecer benesses divinas ou como forma de assinalar acontecimentos importantes na vida religiosa das comunidades. No entanto, a origem desta tradição cultural ainda não está suficientemente estudada.
Os cruzeiros tornaram-se, frequentemente, locais de culto e essa sua função mantém-se na actualidade, com a regular colocação de flores, velas ou oferendas, bem como a realização de missas e ladainhas, muitas vezes acompanhadas pela música de um violino. As práticas religiosas em Goa por vezes aglutinam símbolos de diferentes religiões e a devoção que os cruzeiros inspiram parece ultrapassar a comunidade cristã. De facto, vêem-se mulheres de sari junto dos cruzeiros, ao mesmo tempo que a tradição de colocar colares de flores nos cruzeiros é seguramente de inspiração hindu e pode ser observada na contínua peregrinação que atrai a Holly Cross de Bambolim, um dos mais venerados cruzeiros de Goa.



Hoje serão alguns milhares os cruzeiros dispersos pelo território de Goa e são uma atracção para os adeptos da fotografia.
Embora os que se encontram nos adros das igrejas sejam regularmente limpos e pintados, o tempo e o progresso terão destruído muitos dos mais antigos cruzeiros de inspiração popular e muitos outros terão sido deixados ao abandono.
No entanto, os cruzeiros continuam a manter o seu valor simbólico e multiplicaram-se com a evolução das técnicas de construção e com a possibilidade de acesso a novos materiais, tendo sido adoptados em larga escala pelos emigrantes goeses, que fazem as suas casas em Goa e passaram a colocar cruzeiros ou cruzes nos seus quintais e jardins.
Porém, para além do seu significado religioso, os cruzeiros são um elemento característico da paisagem goesa e são uma expressão eloquente de uma apurada expressão da arte popular, traduzida na originalidade de cada construção e na diversidade de formas e de materiais utilizados.