sábado, 19 de dezembro de 2009

Postal de Goa (VIII)

19 de Dezembro de 1961

Goa, 19 de Dezembro de 1961 - O General Vassalo e Silva é abraçado por goeses e conferencia com os generais indianos: estava consumada a queda da Índia Portuguesa

No dia 19 de Dezembro de 1961, pelas 19 horas e 30 minutos, o governador-geral do Estado da Índia, general Vassalo e Silva, assinou em Chicalim o termo da rendição portuguesa perante o general indiano K. P. Candeth.A “operação Vijay” terminara: as tropas indianas tinham dominado Goa em poucas horas, a resistência encontrada tinha sido meramente simbólica e, desta forma pouco digna, terminava um período de 451 anos de administração portuguesa.Em Damão e em Diu, pequenas parcelas que também integravam o Estado da Índia, a resistência portuguesa foi mais acentuada e mais consistente, mas o resultado final viria a ser o mesmo.

Pangim – Antigo Largo Afonso de Albuquerque, agora denominado Azad Maidan (Praça ou Terreiro da Liberdade), onde se vê o Memorial "to the martyrs of the Freedom Struggle against Portuguese Colonial Rule in India" e o pavilhão onde desde 1843 esteve a estátua de Afonso de Albuquerque e onde agora repousam os restos mortais de Tristão Bragança da Cunha (1891-1958), "the valiant hero of Goan Fight for Freedom."

O julgamento da História ainda não está feito, porque o “caso de Goa” é demasiado complexo para permitir interpretações apressadas ou menos cuidadas.Do lado indiano, as informações oscilam entre a ideia de que se tratou “mais uma demonstração de força do que de uma operação militar” e a afirmação de que a acção militar desenvolvida foi o culminar de “uma luta intensa desenvolvida pelos goeses“, mas ambas as interpretações coincidem no desproporcionado destaque que lhes dão na sua história militar.Do lado português, a questão de Goa também é habitualmente tratada em termos militares, invocando-se a escassez de tropas e de meios materiais capazes para reagir à invasão, enquanto no aspecto político é acentuada a teimosia de Salazar na recusa de negociações e a sua obstinação para que tivesse havido resistência.Por falta de equipamentos e material militar, por falta de motivação política ou simplesmente porque quiseram evitar a destruição de Goa, o facto é que a guarnição militar portuguesa não resistiu ao menos 8 dias, como Salazar desejava, para permitir a condenação internacional da Índia e o recuo das suas tropas.No entanto, é reconhecido que o dispositivo naval que se encontrava no Estado da Índia – aviso “Afonso de Albuquerque” e lancha de fiscalização “Sirius” (em Goa), lancha de fiscalização “Antares” (em Damão) e lancha de fiscalização “Vega” (em Diu), embora com reacções bem diversas, teve um comportamento de grande dignidade e na linha das tradições seculares da Marinha Portuguesa.

O Pavilhão situado em frente do Quartel Geral da Polícia de Goa (antigo Quartel de Infantaria), que foi inaugurado em 17 de Fevereiro de 1843. No pavilhão foi então colocada uma estátua em pedra de Afonso de Albuquerque que pertencia ao frontispício da Igreja da Serra de Velha Goa (construída em 1513 e demolida em 1811), juntamente com as decorações laterais e as 4 colunas de granito do pórtico da igreja.

O Memorial "to the martyrs of the Freedom Struggle against Portuguese Colonial Rule in India"

Em Goa, os acontecimentos de 1961 e a sua análise ainda constituem um assunto muito polémico, sobre o qual ainda se continuam a movimentar muitas paixões, habitualmente centradas na questão de saber se se tratou de uma invasão ou de uma libertação.A palavra libertação entrou no discurso oficial indiano e é justificada pela simples razão de que a acção das Forças Armadas Indianas acabou com a presença da soberania portuguesa, mas muitas pessoas preferem a palavra invasão.Tal como sucedera na Índia Inglesa, também em Goa se haviam formado movimentos e correntes de opinião sustentando uma negociação que acabasse com o domínio colonial e que concedesse uma larga autonomia ao Estado da Índia, mas a ditadura salazarista jamais os reconhecera.A Índia tornara-se independente em 1947 e Salazar permanecia indiferente aos ventos da História e às aspirações autonómicas goesas. Porém, o domínio português em Goa que era representado sobretudo por um Governador nomeado pelo Governo de Lisboa e pela presença mais ou menos simbólica de uma força militar, era exercido de facto pelos próprios goeses, que ocupavam a maioria dos postos da administração, o que hoje parece acontecer em muito menor grau, devido aos quadros que vieram de outras regiões da Índia.

O memorial com os restos mortais de T. B. Cunha que, actualmente, está no interior do pavilhão.

48 anos depois dos acontecimentos de 1961 o nome de Portugal não é indiferente em Goa e, em nenhum dos territórios que do Minho a Timor constituíam o império e hoje são países independentes, subsistem simultaneamente tão fortes sentimentos de amor e desamor por Portugal, nem tanta polémica em torno de um passado com marca portuguesa.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Submarinos

No Diário de Notícias de hoje está um comentário do Almirante Vieira Matias às já famosas declarações do CEMGFA sobre o emprego dos submarinos. Vale a pena ler.
Acrescento eu: Ao fim de mais de três anos como CEMGFA nunca reparou no que os submarinos andavam a fazer?

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

NATAL

Do blogue "Água aberta ... no OCeano":

Natividade (detalhe) de Giotto de Bondone (c. 1267-1337)


Para todos os OCeanos, para todos os nossos colaboradores e visitantes os desejos de um


FELIZ NATAL

E UM BOM ANO NOVO


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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Draga-minas (ex)

(Para ampliar, "clicar" na imagem)

Está na marina de Cascais há já uns (largos) dias. Originalmente era um draga-minas alemão da classe "Lindau" (1958) e escapou à sucata para ser reconvertido em iate, navegando agora com o nome de "Tubingen" e sob a bandeira de Gibraltar. Continua cinzento o coitado ... não será que como iate merecia uma cor mais alegre?

Boas Festas




Caros Camaradas e Amigos

Mais um ano passou e entre vós nos diferentes eventos ou almoços de curso pareceu-me sempre que a felicidade dos anos passados voltava com juventude, alegria e camaradagem! Agradecido meus amigos.
Para vós, amigos e camaradas, e para vossas famílias, um Santo Natal e umas boas entradas no 2010 que espero de muita saúde e alguns €s.
Abraços sinceros
Jaime Montalvão

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Espanto e embaraço


Em entrevista à Antena 1, o general CEMGFA lança dúvidas sobre a utilidade dos submarinos, diz o Diário de Notícias. Questionado pela Antena 1 como vai ser rentabilizado o primeiro submarino a chegar para o ano, deu esta resposta: Quando os submarinos chegarem certamente que será procurada para eles a melhor aplicação e a melhor rentabilização... A entrevistadora surpreendida: Ainda não há missão conhecida para esse primeiro submarino? Resposta: Conhecem-se em tese as capacidades dos submarinos ... e é nesse contexto que procuraremos a melhor aplicação do novo recurso.

Fiquei sem pinga de sangue! O comandante-chefe, comandante operacional das F.A. que em tudo manda não sabe para que servem os submarinos. Obviamente que não percebeu o que os submarinos por cá andam a fazer há noventa anos e portanto, agora que é ele que os quer utilizar, não sabe como. E não tem a humildade de perguntar.

O problema é este: Um comandante operacional de nível estratégico tem que ter um passado operacional e um conhecimento razoável do funcionamento das forças de todos os ramos, e não se deve substituir aos comandos operacionais de cada ramo. Não é o caso, pelos vistos, com a agravante de julgar que se incluem submarinos no sistema de forças sem saber para que servem. Não podia ser mais insultuoso para os anteriores CEMGFAs e CEMAs.


Postal de Goa (VII)

MANDOS & DULPODS


Goa é uma terra de música e de músicos, onde se fundem harmonicamente as tradições musicais da Índia e do ocidente. Assim sucede com o mando [mandó], por vezes considerado como a canção de Goa.
O mando é uma forma musical que nasceu e se desenvolveu em Goa durante o século XIX, incorporando elementos musicais indianos e ocidentais e que é cantado em Konkani, a língua nacional de Goa, embora inclua muitas palavras de origem portuguesa.
É muito popular entre a comunidade católica de todo o território de Goa, sobretudo no sul de Goa e especialmente em Loutolim, Curtorim e Raia, sendo cantado por pequenos grupos em ocasiões festivas e, especialmente, nas festas de casamento.
Os mandos são, sobretudo, canções de amor, de afecto e de saudade, embora também incluam o lamento, a crítica social, o anúncio de novidades e a descrição de acontecimentos.
Associado à música, o mando desenvolveu-se também como uma dança de salão de elevado requinte estético. Os homens e as mulheres dispõem-se em filas separadas. Os homens vestem calças de fantasia e casaca, segurando uma cartola na mão e um lenço branco no outro, ou apenas fato escuro, o que mostra a influência portuguesa;
as mulheres vestem o bazu torop ou pano baju, uma elegante saia comprida bordada a ouro, uma blusa de mangas compridas e usam um lenço dobrado sobre os ombros, como se fosse um xaile. Fazem-se sempre acompanhar por um leque, com que cobrem uma parte da face e, com os olhos, exibem uma sofisticada mímica de sedução.
Se o mando é uma expressão romântica da cultura goesa, o dulpod é um hino de alegria que o completa, com um andamento muito rápido, que evoca o riso e o humor despreocupado e que tem a função de amenizar a tristeza do mando.
O mando e o dulpod são complementares e não são cantados em separado. São acompanhados pelo gumot, que é um instrumento de percussão tradicional de Goa, enquanto o violino, a viola e o violão foram incorporados mais tarde, por influência portuguesa.
Porém, apesar de haver muitos estudos sobre a música tradicional goesa e sobre o mando, que procuram compreender a sua origem e as suas formas, não há unanimidade sobre esta matéria, embora todos reconheçam uma forte influência ocidental e, sobretudo, portuguesa.

Em 1965 o Clube Nacional organizou o primeiro Festival do Mando em Pangim, mas a partir de 1974 o festival passou a ser organizado pelo Goa Cultural and Social Centre, em colaboração com a Kala Academy que, neste ano de 2009, realizaram o 43rd Mando Festival com a participação de 42 grupos.
O interesse das novas gerações pela moderna música ocidental tem sido uma ameaça para a sobrevivência do mando, enquanto expressão popular da música tradicional goesa, mas o Festival tem respondido com sucesso a essa ameaça e tem contribuído para o renascimento do interesse pelo mando.
Para os não especialistas e para aqueles que não sabem Konkani, o mando é um espectáculo de grande riqueza estética e, em Portugal, pode ser apreciado através de algumas ocasionais apresentações públicas do Ekvat, um grupo de música e danças tradicionais de Goa, constituído em Lisboa em 1989, no âmbito das actividades culturais da Casa de Goa (http://www.ekvat.org/).






Video clips por cortesia de Joel D'Souza (Goa)